Algumas reflexões sobre o atual cenário do Cinema Brasileiro

Ao contrário do que pode induzir o título acima não pretendo fazer nenhuma análise sobre qualquer filme lançado nos cinemas, nem sobre qualquer belx diretorx que anda produzindo belos filmes por aí. Quero refletir um pouco sobre uma realidade muito próxima de nós: trabalhar com cinema não sendo umx profissional estável no mercado.

Sim, escolhemos trabalhar com cinema, mais do que isso muitxs de nós escolheram viver disso, no sentido mais abrangente da palavra. Muitxs de nós resolvemos fazer cinema porque achamos que é uma ferramenta de transformação, porque queremos fazer arte, porque muitxs de nós nos sentimos artistas, porque muitxs de nós gosta de mexer em uma câmera e não queríamos ser funcionários públicos. Temos inúmeros e diferentes motivos que nos levaram ao cinema, mas inevitavelmente temos um mesmo problema em comum: precisamos sobreviver, e para isso trabalhar. A não ser que umx de nós seja parente dos Moreira Salles e esteja junto com eles na revista Forbes de bilionários do planeta e que possa fazer cinema sem se preocupar em pagar o aluguel.

E “trabalhar” com arte sempre e historicamente foi complicado. Se somos artistas ou não, isso nem vem ao caso nessa discussão, o fato é que precisamos pagar nossas contas. Pensando nisso nas férias surge uma proposta de trampo: um filme que terá algumas cenas filmadas em Serrinha e parte dele já foi filmado na Polônia. No email precisam de “VOLUNTÁRIOS QUE DESEJEM VIVENCIAR ESTA EXPERIÊNCIA, PRINCIPALMENTE OS ESTUDANDES DA ÁREA DE CINEMA QUE QUEIRA COLOCAR EM PRÁTICA OS SEUS CONHECIMENTOS TEÓRICOS”, além de três profissionais que serão pagos nas seguintes áreas “ASSISTENTE DE DIREÇÃO, PROFISSIONAL QUE TRABALHE COM ILUMINAÇÃO, PROFISSIONAL QUE TRABALHE COM SONORIZAÇÃO E CAPTAÇÃO DE AÚDIO.”

Ok, muito legal, quero trabalhar e vou mandar meu curriculum. Não tenho nenhuma experiência “de verdade” nas funções remuneradas, mas topo fazer parte dos outros três voluntários “que desejem vivenciar essa experiência”, mando meu curriculum e recebo a seguinte resposta: “(…)Como somos todos voluntários neste projeto não estamos remunerando ninguém. A principio todas as depesas de alimentaçao, transporte e hospedagem seria por sua conta. Por sugestão de um colega seu estamos vendo se uma escola poderia ser utilizada para a sua dormida e o transporte iremos ver se a prefeitura conseguiria. Caso consigamos estes itens apenas a alimentaçao seria por sua conta. Ao final um certificado como estágio na produçao e seu nome nos créditos finais do filme poderemos garantir.

Alguns nomes são conhecidos nesta produçao como as atrizes da Globo , Amanda Richter, Arieta Correa e o Ricardo Ayade.”

E aí chega a velha exploração do trabalho no sistema que a gente vive!Quando eu leio que além de trabalharmos voluntariamente, ainda teremos que pagar nosso transporte até Serrinha, nossa alimentação e nossa estadia me senti comprando um espaço nas telas, onde meu nome estaria passando –não ao lado, porque estaríamos bem distante hierarquicamente – junto com uma atriz da globo.

Penso ainda e mais do que isso, a prática nos mostra o quanto é difícil fazer um filme. O quanto é complicado lidar com uma equipe tão grande, com tantos gastos de produção e ainda fazer o que desejamos enquanto arte. Sei que a falta de grana é uma realidade da grande maioria dos filmes feitos no Brasil, não operamos em modo industrial. Acho que o trabalho voluntário para nós que não temos muita experiência ainda é uma ótima espaço de aprendizado e vai nos construindo e abrindo muitas portas. É um ótimo espaço principalmente quando você sabe que o projeto é sério.

Mas como a realidade não é tão bonita assim, se pararmos pra pensar no que envolve o trabalho voluntário numa grande produção, podemos chegar a algumas conclusões e elucidar outras tantas, vamos lá:

1.Olá você que acha que cinema é arte e vai viver lindamente disso: cinema é muito mais que isso. E uma das primeiras coisas que ele pode ser é uma coisa que dá muito dinheiro – apesar de gastar outro tanto.

2.Dá muito dinheiro e portanto também é indústria. E para a indústria existir na sociedade em que vivemos é necessário a exploração do trabalho alheio. E quero informar aos navegantes que somos a base de uma pirâmide do trabalho cinematográfico: somos muitxs e com pouca experiência. Ou seja, nos explorem porque vocês tem plenas condições para tal.

3.Trabalhar faz bem e eu gosto! Mas não para um cara que diz que faz um trabalho voluntário – o que é mentira, porque se você tá pagando todos os custos do trabalho e mais cedendo a sua força de trabalho você está pagando para trabalhar – enquanto contrata atriz da Globo. Quem tem dinheiro pra pagar atriz da globo, filmar na Polônia e em várias outras cidades no Brasil não ter dinheiro pra pagar quem vai carregar equipamento –“botando meus conhecimentos teóricos em prática” – não merece muito o meu respeito.

4.Ainda mais quando você vai pesquisar finalmente sobre o que era o tal do filme que você ia pagar pra trabalhar. Aí você se depara com uma produção sobre um drama existencial de um cara, dirigido pelo fundador da primeira Igreja Batista de Varsóvia. Sim, esse lugar onde todo mundo já ouviu falar e não lembra porque – é a capital da Polônia onde Nazistas e Comunistas travaram uma importante batalha, matando quase toda a população durante a Segunda Guerra Mundial.

Realmente você pára pra pensar porque vai pagar pra trabalhar num filme, que na realidade é uma grande produção, onde tem atrizes da Globo, onde o diretor é um brasileiro que foi pra Polônia fundar a primeira Igreja Batista de lá, aí você vê o quanto não tem nada de romântico esse nosso universo de trabalho. Você pode ter também uma aula de como funciona a sociedade, além de ilustrar que, historicamente a Igreja vem mantendo o seu papel.

(Atenção, atenção nada contra você que é Batista. Respeito sua Fé, mas não concordo necessariamente com as posturas e práticas da Instituição Religiosa que você faz parte. Se for pra criticar o texto que seja por conta do sistema de produção cinematográfico, e não por conta de três linhas que escrevi que me fizeram ter mais raiva do ser humano que acha que cinema não é trabalho.)

Sim, cinema é trabalho, sim! É e pode ser muito, mas muito mais do que isso, do que uma dicotomia, ou uma relação entre trabalho e arte. Mas ainda temos nossas necessidades: pagar o aluguel e fazer aquilo que nos faz feliz (não necessariamente em ordem de prioridade). Bom, eu não seria feliz trabalhando num filme desses.

E não, não estou num momento em que caiu a ficha e vi que o sistema de trabalho dentro do cinema pode ser bem escroto. Isso eu já sabia faz tempo, e me pego sempre naquela velha dicotomia entre “trabalhar e estar me vendendo”, ou a relação entre “trabalho e arte”, ou se “é saudável a gente tratar o cinema como algo intocável”, ou se “é possível fazer cinema independente no Brasil”, ou se “é possível que eu possa trabalhar e me manter sem ser funcionária da Globo Filmes”. Definitivamente pra mim, cinema não é Hobbie, é vida.

Bom, só algumas provocações pra gente começar a discutir isso coletivamente, acho que muitxs de nós pensamos em muitas dessas questões mas pouco discutimos. Quem sabe esse, além da sala de aula, do set de filmagem e das mesas de bar, seja um bom momento!

Até,

Luara.

Luara,

O e-mail resposta da produção desse filme mostra que ainda não existe uma idéia concreta do que é fazer cinema no Brasil, o oportunismo e o start cinematográfico no Brasil, se confunde como mídia de massa, Conspirações Filmes, Blog da Bethânia e TRopa de Elite, não é atoa que o padilha agora vai dirigir o Robocop.

Creio eu que a construção de uma Industria cinematográfica brasileira depende atualmente de uma crescente adequação de profissionais,( isso está ocorrêndo com a abertura de inúmeros espaços de formação ), o acesso aos aparatos tecnológicos e principalmente a formação de linguagens e propostas de linguagens para um cinema brasileiro, que desde o cinema novo anda deficiente.

Pra começo de discussão, precisamos observar que em cinema nos países pobre é preciso ser colaborativo e empreendedorl. Muitos têm feito por aí filmes com pouquíssimo dinheiro, mas profundamente interessantes, e os profissionais que participam investem inclusive na alimentação, no transporte e na hospedagem, mas baseado no que vc observou muito bem, nenhum baseia sua arte aos referencias de mídia e espetáculo.

Cabe a nós, estudantes de cinema, sermos criteriosos na construção de nossos portfólios, pensar a linguagem cinematográfica em paralelo aos meios produtivos, aos espaços que podemos ocupar e compartilhar. A palavra de ordem que o mercado nos impõe pode mesmo ser calada caso seja pensemos novos meios produtivos, de distribuição, formas narrativas, estética. Penso que nesse momento, tudo é aprendizado, porém os espaços para isso estão limitados e como as cotas de esperança têm se esgotado, pois vivemos cada vez mais em uma mundo competitivo, daí a prerrogativa comercial da concorrência permite que filmes como esse ( produção !!!???) contratem estudantes como cobaias. Em nome do aprendizado? Pois é, um estudante precisa se submeter a situações lamentáveis. Mas, como atentou uma amiga minha, “Se vc não quiser, alguém irá querer” e é com essa mentalidade que o mercado cinematográfico (dentre outros) da “mais valia” prospera.

Não é a toa que estamos juntas em coletivos independentes, tentando dar vazão aos sentidos e à arte do cinema!
Um bom momento pra gente!

beijos

Tininha

1 Comentário

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Uma resposta para Algumas reflexões sobre o atual cenário do Cinema Brasileiro

  1. tininha luara,, eu não sou e cinema mas gosto de cinema. não trabalho diretamente produzindo arte, mas qnd posso promovo-a. penso que tanto no cinema e como em quase todas as artes o artista tem que se sujeitar a trabalhar de graça para tr um espaço e um brilho. um grande problema: é que todavia ainda nao reconhecemos o artista como um trabalhador como outro qualquer…

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